A passagem dos 660 anos do nascimento (1349?) em Moledo (Lourinhã) do segundo filho (D. João) de D. Pedro e D. Inês é ocasião para trazermos a público algumas abordagens geográficas do conhecido romance amoroso que tem preenchido inúmera literatura.
Não nos deteremos aqui no reavivar dos apaixonados episódios e do trágico desfecho. Procuraremos lançar algumas reflexões sobre a “espacialização” do decorrido, desde a partida da jovem e formosa Inês de terras galegas até território português, acompanhando a futura consorte do filho de Afonso IV.
Importará primeiramente certificar, com alguma previsão, o local de nascimento — Límia, província de Ourense, sul da Galiza — da desditosa Inês. Filha de D. Pedro Fernandes (Rodrigues?) de Castro e de Aldonza Soares de Valladares, ficará para a história conhecida como Inês de Castro. No entanto, manuscrito anónimo do sec. XVI (1580) recentemente encontrado acrescenta ao seu nome o apelido Valladares, retirado de sua mãe. Há agora novo fôlego para apurar a veracidade deste dado que poderá ser apelativo a lugar geográfico e motivador a novas investigações.
A viagem de D. Constança e sua aia Inês para Portugal indica não apenas caminhos andados como, fundamentalmente, locais de passagem e paragem da comitiva que interessa averiguar para fundamentar alguma bibliografia.
E em Coimbra? Haverá uma “nova geografia” da sua presença? Em Santa Clara-a-Velha, no Paço da Rainha, que deambulações encerrará de Inês de Castro? Tomaremos como certas as descrições de poetas e cronistas?
Por outro lado, a localização de factos (Inês e sua memória) e a presença ascendente na corte portuguesa da família Castro, disseminada pela Europa (França, Itália e Alemanha) e mundo suscitarão o recurso a escalas de análise para explicar nexos e causalidades de igual utilidade a outras ciências. Necessário se torna alargar horizontes para outras matérias.
Nestes percursos geográficos, atentaremos ao compulsivo afastamento de Inês de Castro para Espanha — castelo de Albuquerque – Badajoz — donde regressará, a instâncias de seu amado, em consequência da morte de D. Constança.
“Fazendo maridança”, Pedro e Inês habitam um pequeno paço em Moledo (Lourinhã), nascendo nele todos os filhos, para mais tarde fixarem residência no Norte (Bragança?). Estes são novos motivos para a análise espacial dos traçados utilizados no território português.
Da trágica morte de Inês e das causas de Estado que lhe estiveram na origem muitos autores se encarregaram. Para nós deixaremos a “confirmação geográfica” do imponente cortejo fúnebre entre Coimbra e Alcobaça. O itinerário passou por terras onde o cruel acontecimento poderá ter deixado marcas no imaginário popular.
Percorrer os locais da geografia inesiana poderá enriquecer, pela certeza e pelo conhecimento, a expressão literária da paixão de Pedro e Inês.

(Centro de Estudos Inesianos de Montemor-o-Velho)