Assassinada a 07 de Janeiro de 1355

D. Inês de Castro, era filha de um importante fidalgo castelhano. Era uma das damas que D. Constança, casada com o futuro rei D. Pedro Iº, trouxe para Portugal, em 1340. Em breve o então ainda infante D. Pedro, passou a viver maritalmente com ela, dando-lhe quatro filhos. As relações adulterinas, o parentesco entre os dois, pois eram primos em 2º grau, o seu compadrio (era madrinha do 2º filho de D. Pedro e de D. Constança, e o perigo do infante D. Fernando poder vir a ser afastado do trono, levaram o rei e pai de D. Pedro, D. Afonso IV, depois de ouvir seus conselheiros, a mandar executar D. Inês de Castro. Em 1360, D. Pedro declarou ter casado com ela, secretamente.
(…)A ligação amorosa entre o infante D. Pedro e Inês de Castro foi imediata o que provocou forte conflito entre D. Afonso IV e seu filho e provocou a morte prematura de Constança Manuel. Temendo o monarca a nefasta influência dos Castros em seu filho, resolveu condenar à morte Inês de Castro, o que provocou a rebelião de D. Pedro contra si. Contudo a paz entre o pai e o filho foi estabelecida em breve e D. Pedro foi associado aos negócios do Estado, ficando-lhe desde logo incumbida uma função, que sempre haveria de andar ligada à sua memória – a de exercer justiça (…).
(…) D. Pedro traslada o corpo de Inês de Castro da sua sepultura em Coimbra para o túmulo real no mosteiro de Alcobaça. É este sim o final da história, com a lúgubre procissão nocturna que levou o corpo de Coimbra a Alcobaça, iluminada pelas tochas seguras pelos nobres da corte, e com a tétrica cerimónia em que se diz que D. Pedro obrigou a sua corte a prestar homenagem à sua rainha, cadáver entronizado a que os nobres tiveram de beijar a mão (…).

Camões e a bela D. Inês de Castro

(…) Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas. (…)

D. Inês de Castro, dama castelhana, famosa por sua beleza, que acompanhou D. Constança quando esta foi casar-se com o Príncipe Herdeiro, D. Pedro, filho de D. Afonso IV. Logo o príncipe apaixonou-se por ela, iniciando um romance famoso e desventurado, que envolveu, inclusive, aspectos políticos. Temia-se que o caso fizesse afastar o sucessor legal e aumentasse a influência castelhana. O rei de Portugal expulsou D. Inês de Portugal, mas, com a morte de D. Constança, D. Pedro a fez voltar. Apesar da declaração formal de que se casara com ela, ainda persiste dúvidas a esse respeito. D. Afonso IV consentiu no assassínio de D. Inês, o que provocou cruel vingança do príncipe quando ascendeu ao trono, como D. Pedro 1º.
Logo que assumiu o poder, foi sua principal ideia vingar-se dos matadores de D. Inês de Castro. Conseguiu apanhar apenas dois, pois Diogo Lopes Pacheco pode escapar-se a tempo. Mandou-os conduzir a Santarém, onde em 1358, fez-lhe dar morte cruel. Diz o cronista Fernão Lopes, que a um foi arrancado o coração pelas costas e outro pelo peito.
O tema de Inês de Castro tem sido um dos mais férteis na literatura português.
D. Pedro I, infante de Portugal, era filho do rei D. Afonso IV e de D. Beatriz de Castela.
Em criança foi-lhe prometido casamento com a princesa D. Branca, filha do Infante D. Pedro de Castela, prima do rei Afonso XI e neta de Sancho IV de Castela e D. Maria Molina. Era um casamento político que acabou por não se consumar, pois a jovem D. Branca, aos 14 anos, mostrava-se tão fraca e doente que o Infante se recusou a casar com ela.
Terminado este triste episódio, D. Afonso IV voltou de novo a tentar arranjar – lhe noiva, escolhendo D. Constança Manoel, filha do grande fidalgo D. João Manoel, cronista e poeta, senhor de várias vilas e castelos. Depois de tempos atribulados e de muitas intrigas pelo meio conseguiu-se enfim concretizar o casamento, entrando em Portugal D. Constança, com as honrarias devidas a um descendente dos reis de Castela, Leão e Aragão.
Ao Infante, no entanto, não agradou muito este enlace, pois queria ter sido ele a escolher noiva.
Este casamento por conveniência levou a que o Infante se afastasse da esposa, passando os dias a folgar e caçar nas terras de Touguia.
A vida de D. Pedro continuava assim afogada em excessos até que um dia seus olhos pousaram na dama de companhia de D. Constança que o entonteceram de tal maneira que pensou em nunca mais a abandonar.
O escândalo tomou tais proporções que a esposa , D. Constança, resolveu convidar D. Inês para madrinha do filho que tinha no ventre pois considerava que este parentesco espiritual os afastaria.
Porém, tal decisão não teve a eficácia necessária, pois D. Pedro, de carácter extremamente apaixonado e arrebatado, não vergava a nada que impedisse a concretização dessa paixão.
O seu amor excedeu de tal modo que o escândalo estalou na corte e o rei D. Afonso IV forçou a amante do filho a sair do país. Inês escondeu-se no castelo de Albuquerque, próximo da fronteira portuguesa, situado no alto de uma escarpa, a poucos quilómetros do Alentejo.
Fora construído por D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e familiar de D. Inês, pois aí tinha sido criada pela tia D. Teresa de Albuquerque, desde tenra idade.
Foi no entanto, uma afronta a D. Afonso IV que sempre odiou esse irmão bastardo, a quem culpava das desavenças tidas com o pai, o rei D. Dinis.
Entretanto, nem a distancia foi obstáculo aos dois amantes, visto que continuaram a corresponder-se por intermédio de várias pessoas.
Em 1354, D. Constança morre ao dar à luz o terceiro filho. D. Pedro fica então liberto para ir buscar a sua amada. Preso como estava a um casamento que não procurara nem queria, viu na morte da esposa a sua libertação.
Logo a seguir à morte da sua esposa, D. Pedro traz D. Inês para Portugal e leva-a para as terras da Lourinhã que eram muito do seu agrado. Instala-a numa quinta em Moledo, nas proximidades do Paço da Serra, onde ele passava os seus tempos de lazer. Viveram separados algum tempo e depois juntos, quer nesta duas localidades, quer em Touguia.
Foram tempos felizes, apesar dos murmúrios do povo, que não via com bons olhos a espanhola. Consideravam que a formosa dama era uma filha bastarda do poderoso fidalgo galego Pedro Fernandez de Castro e os seus irmãos, Álvaro Pires de Castro e Fernando de Castro não escondiam as suas ambições em relação ao poder. Seguindo em Castela o partido do senhor de Albuquerque, que se colocara contra o soberano castelhano, contribuíram para a má relação entre Portugal e Castela. Ambicionando submeter à sua influência os dois reinos peninsulares. Conseguiram que D. Pedro se declarasse pretendente às coroas de Leão e Castela, o que deixou D. Afonso IV desgostoso, pois queria Portugal independente e neutral das lutas castelhanas.
Por outro lado, Afonso IV via com apreensão a existência dos filhos bastardos de D. Pedro, que considerava de mau prenúncio para a paz interna do pais.
Esta agudizou-se com o aparecimento da “peste” que apavorava toda a gente. Então, os mais medrosos, diziam ser um “mau olhado” e culpavam D. Inês de todo o mal.
O reino até então próspero, começa a empobrecer e o medo invade as populações. D. Afonso IV, para minimizar a crise, publica e faz cumprir as “Leis do Trabalho’, mas a situação continuava difícil e sem solução à vista. Os campos que tinham sido férteis, encontravam-se abandonados e as populações apavoradas com a peste, fogem sem destino.
Neste clima, D. Pedro resolve partir com D. Inês e leva-a para os arredores do Porto, para Canidelo, onde a instala com todas as honras e comodidades.
Entretanto o descontentamento aumenta à medida que o escândalo dos amores prossegue. Os conselheiros falam que D. Pedro está dominado pelos irmãos de Inês e a sua amizade torna-se cada vez mais preocupante – facto comprovado por várias doações e nomeações feitas àquela família, tendo chegado Álvaro Pires de Castro a Condestável do Reino. A desconfiança alastra e o ódio aos Castros também.
Tempos depois, já os dois amantes não estão em Canidelo, mas em Coimbra, numa quinta próxima do Mosteiro de Santa Clara, o que foi muito mal aceite pelo povo, que não via com bons olhos aqueles amores adúlteros, principalmente por se passarem junto ao Convento de Santa Clara, onde a bondosa rainha D. Isabel de Aragão vivera e se tornara santa. Mas a eles nada importava senão o seu amor…
Os notáveis do reino temiam cada vez mais a poderosa influência dos Castros e insistem com o rei que a única solução é acabar com a vida de Inês.
Os conselheiros Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco pressentiram o perigo e temiam que os intriguistas e ambiciosos irmãos da espanhola levassem D. Pedro a ser um mau rei e receavam pela vida do pequeno Infante D. Fernando, o filho legitimo de D. Pedro e D. Constança e futuro rei de Portugal. Nos primeiros dias de Janeiro de 1355 planeiam a morte de Inês no Castelo de Montemor-o-Velho e pedem ao rei a sua anuência.
O rei ficou dividido entre as razões do Estado e o sentimento familiar. Acaba por vencer a razão do Estado… e assim, no dia 7 de Janeiro desse mesmo ano, D. Afonso IV mete-se a caminho de Coimbra, acompanhado de gente armada, para matar a adúltera.
Conta-se que um facto estranho se passou em Coimbra nessa triste madrugada… Antes da partida de D. Pedro para a caça, algo aconteceu: foi um pressentimento do que iria suceder. Quando o Infante e os seus homens se preparavam para sair, um velho cão negro, de aspecto feroz, destacou-se da matilha e enfurecido por qualquer força estranha, correu em direcção a Inês. A fera estava horrível, com um brilho demoníaco nos olhos, a boca a espumar, os dentes a brilhar, pronta a atacar…
O príncipe e os seus homens ficaram petrificados, mas de repente, D. Pedro, decidido, avançou com a espada e de um só golpe degolou a fera, que veio a cair cambaleante aos pés de Inês salpicando-lhe o traje de gotas de sangue. Um pavor supersticioso gelou o ambiente… D. Inês ficou só… e um grande temor a inundou. Ao menor barulho o coração tremia como que adivinhasse a tragédia.
E ela iria consumar¬-se. O rei D. Afonso IV e os seus conselheiros entram no paço e apesar das súplicas da “mísera e mesquinha” a tragédia desenrola-se… não sem que o rei hesite, angustiado, perante a fragilidade da dama e os choros das crianças… Inês é finalmente assassinada.

Após o assassínio, D. Inês foi levada para a igreja de Santa Clara e foi enterrada no dia 7 de Janeiro de 1355. Estava consumada a tragédia…
Ao ter conhecimento do bárbaro feito, a reacção de D. Pedro foi violenta: levantou um exército contra o rei, seu pai e entre os seus apoiantes. D. Afonso IV marchou para o norte à frente das suas tropas e só a intervenção da rainha D. Beatriz, D. Pedro assinou a paz com o pai.
Em 1357 morreu D. Afonso IV e D. Pedro subiu finalmente subiu ao trono. Este procurou de imediato reaver os assassinos de D. Inês que se encontravam refugiados em Castela. Graças a um contrato com o primo D. Pedro de Castela, D. Pedro I, conseguiu a extradição de Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves, já que Diogo Lopes Pacheco conseguira fugir a tempo para Aragão e posteriormente para França.
Foram entregues ao rei, em Santarém. Este, desejoso de vingança, mandou tirar o coração pelo peito a Pêro Coelho e pelas costas a Álvaro Gonçalves. Depois, reza a história, não contente com isso pediu que lhe trouxessem cebola e vinagre e segundo a lenda teria trincado os corações.
Entretanto, D. Pedro mandou construir um belo túmulo destinado a recolher os restos mortais daquela que, segundo afirmou, fora sua esposa e que queria dignificada depois da morte.
Em 2 de Abril de 1361, fez-se a transladação do corpo de D. Inês de Castro do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra para o Mosteiro de Alcobaça.

Razões para a Impossibilidade do Amor entre D. Inês e D. Pedro
A beleza singular de D. Inês despertou desde logo a atenção do Príncipe, que veio a apaixonar-se profundamente por ela. Desta paixão nasceu entre D. Pedro e D. Inês uma ligação amorosa que provocou escândalo na Corte portuguesa, motivo por que o rei resolveu intervir, expulsando do reino Inês de Castro, que veio a instalar-se no castelo de Albuquerque, na fronteira de Espanha.
Constança morre de parto em 1345 e a ligação amorosa entre D. Pedro e D. Inês estreita-se ainda mais: contra a determinação do rei, D. Pedro manda que D. Inês regresse a Portugal e instala-a na sua própria casa, onde passam a viver uma vida de marido e mulher, de que nascem quatro filhos.
Os conselheiros do rei aperceberam-se das atenções com que o herdeiro do trono português recebia os irmãos de D. Inês e outros fidalgos galegos, chamaram a atenção de D. Afonso IV para aquele estado de coisas e para os perigos que poderiam advir dessa circunstância, uma vez que seria natural antever a possibilidade de se vir a criar uma influência dominante de Castela sobre a política portuguesa. Persuadiram o rei de que esse perigo poderia afastar-se definidamente, se cortasse pela raiz a causa real desse perigo: a influência que D. Inês exercia sobre o príncipe D. Pedro, que um dia viria a ser rei de Portugal. Para isso seria necessário e suficiente eliminar D. Inês de Castro.
O problema foi discutido na presença dos três conselheiros do rei em Montemor-o-Velho, e aí ficou resolvido que Inês seria executada sem demora. Quando D. Inês soube desta resolução, foi ter com o rei, rodeada dos filhos, para implorar misericórdia, uma vez que ela se considerava isenta de qualquer culpa. As súplicas de Inês só momentaneamente apiedaram D. Afonso IV, que entretanto se deslocara a Coimbra para que se desse cumprimento à deliberação tomada. A execução de D. Inês efectuou-se em 7 de Janeiro de 1355, segundo o ritual e as práticas daquele tempo.
Temia-se, por um lado, a influência nefasta dos Castros junto do infante e, por outro, futuras lutas na sucessão ao trono entre os filhos legítimos de D. Pedro e os que teve de D. Inês, comprometendo a segurança do estado. Assim se explica a decisão de D. Afonso IV de afastar D. Inês de Castro, condenando-a à morte, sendo julgada e degolada em Coimbra, a 7 de Janeiro de 1355. Após a execução, D. Pedro revoltou-se contra o pai, e, com o apoio de nobres que lhe eram favoráveis e de D. Fernando e D. Álvaro Pires de Castro, irmãos de D. Inês, declarou guerra a seu pai. Montou o seu quartel general no norte, chegando mesmo a tentar apoderar-se da cidade do Porto. Em breve, contudo, a paz se iria restabelecer, graças à intervenção de D. Beatriz, a rainha-mãe, que evitou o encontro militar entre pai e filho, firmando-se a reconciliação entre ambos em Marco de Canaveses.
Assim, uma das consequências deste assassínio diz respeito à reacção de D. Pedro perante o facto consumado. Apenas uma intervenção da rainha, D. Beatriz de Castela, impede uma provável luta entre pai e filho. O acordo de paz entre D. Pedro e seu pai foi firmado em Marco de Canaveses no dia 15 de Agosto de 1355, tendo desde logo D. Afonso IV delegado em D. Pedro grande parte do poder. Neste acordo prometeu D. Pedro esquecer o passado, nomeadamente a morte de D. Inês, assim como os seus intervenientes, incluindo os seus carrascos. Ficou o infante desde esta altura incumbido de, com certas reservas, exercer justiça em todo o reino.
Anos depois, em 1360, D. Pedro I, já então rei de Portugal, jurou, perante a sua corte, que havia casado clandestinamente com D. Inês um ano antes da sua morte.
A relação de D. Pedro com D. Inês de Castro, que pertencia a uma das famílias mais nobres e poderosas de Castela, poderia conduzir ao trono português um dos filhos nascidos desta relação ilegítima. O herdeiro legítimo, filho de D. Pedro e D. Constança seria, assim, preterido. A independência nacional era posta em causa.
Daí advém a principal razão de este assassínio ter acontecido.

É na Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, conhecido por Mosteiro de Alcobaça, que se encontram os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, enquadrando-se o valor simbólico de que se revestem na mística austera da espiritualidade cisterciense. Em 1361, por ordem de D. Pedro, foi colocado no lado direito do transepto o túmulo de D. Inês de Castro e, anos mais tarde, dando-lhe a direita, o túmulo do próprio D. Pedro. A actual colocação dos dois túmulos data de meados deste século, após obras de restauro e de reposição das naves da Igreja no estilo gótico inicial. Os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, mandados esculpir pelo próprio Rei, constituem os mais belos exemplares da arte tumulária medieval portuguesa.
Os baixos relevos do de D. Inês têm por tema principal cenas da Vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Nas esculturas do de D. Pedro estão representadas cenas da vida dos dois amantes desde a chegada de Inês a Portugal.
Foi em 1178, no contexto da concretização do projecto europeu da Reconquista Cristã, que D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, incumbiu os monges da Ordem de Cister de iniciarem a construção, em Alcobaça, de uma Abadia e de outras obras destinadas à fixação das populações e ao aproveitamento agrícola das terras recentemente reconquistadas aos mouros.
A estrutura da obra seguiu o plano da Igreja-Mãe de Claraval como modelo. A simplicidade e a austeridade eram de regra, a que o esforço de guerra acrescentava atributos de fortaleza, igualmente notórios na Sé romântica de Coimbra. O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça é o primeiro edifício de estilo gótico evoluído que se construiu em Portugal.

D. Inês de Castro foi morta no dia 7 de Janeiro de 1355 e foi enterrada no Mosteiro de Santa Clara em Coimbra. No entanto, no dia 2 de Abril de 1361, fez-se a transladação do corpo de Inês de Castro desse local para o Mosteiro de Alcobaça.
D. Fernão Lopes, que viveu depois de referido acontecimento descreve-o do seguinte modo:
“Mandou D. Pedro obrar um monumento de alva pedra, todo muito subtilmente lavrado sobre a tampa de cima a imagem dela com a coroa na cabeça como se fora ha; e neste momento mandou pôr no Mosteiro de Alcobaça, não à entrada onde fazem os Reis, mas dentro de igreja, à mão direita, junto da Capela Mor, e fez fazer o seu corpo do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde fazia, o mais honradamente que se pode fazer, porque ele vinha em umas andas muito preparados para tal tempo, as quais traziam grandes cavalos acompanhados de grandes Fidalgos, e outra muita gente, e Donzelas, e outra muita Cleresia; e pelo caminho estavam muitos mil homens com círios nas mãos, de tal sorte ordenados, sempre o seu corpo foi todo o caminho por entre círios acesos; e assim chegaram até ao dito Mosteiro, que eram dali dezassete mil léguas, onde com muitas missas, e grande solenidade foi posto em aquele momento. E foi esta a mais honrada transladação, que até aquele tempo em Portugal fora visto.”
Como se pode observar por esta descrição não houve sítio por onde o corpo de D. Inês passasse que não estivesse alumiado por velas, quer fosse de dia ou de noite, fizesse sol ou chovesse. Schoffer diz que D. Inês de Castro foi conduzida a Alcobaça por entre duas filas de estrelas.
A transferência do seu cadáver do Mosteiro de Santa Clara em Coimbra para o Mosteiro de Alcobaça promoveu, de certo modo, a reabilitação da figura de D. Inês de Castro, visto que esta cerimónia se revestiu de uma imponência e grandiosidade nunca antes vista em Portugal.
Segundo o que se diz, após a sua chegada ao referido Mosteiro, o rei mandou colocar o cadáver de D. Inês num trono, colocou-lhe sobre o crânio a coroa real e obrigou todos os nobres a beijar a descarnada mão da rainha morta.
Isto porque D. Pedro jurou em 12 de Junho de 1360, na vila de Cantanhede, que sete anos antes, quando se encontrava em Bragança, recebera como sua legitima esposa D. Inês de Castro. Por esse motivo, era de justiça que mesmo depois de morta, recebesse as homenagens devidas.
Segundo Fr. Manuel dos Santos, D. Pedro I veio muitas vezes ao Mosteiro de Alcobaça, não só no tempo em que lavrara a sepultura como depois da transladação de D. Inês.
Este monarca tinha uma grande afinidade com este mosteiro e terá sido por isso que Pedro I restituiu ao Mosteiro de Alcobaça tudo o que foi lhe havia sido tirado por el-rei, D. Afonso IV, durante o seu reinado.
D. Pedro I mandou, em vida, fazer o seu sarcófago e ordenou em seu testamento o sepultassem no Mosteiro de Alcobaça, frente à sepultura de sua amada. O objectivo seria que quando o mundo acabasse e os mortos regressassem à vida, a primeira pessoa que ele visse fosse a sua eterna amada.
Faleceu este monarca em Estremoz, no dia 17 de Janeiro de 1367.

A Quinta das Lágrimas, construída no século XVIII mas, devido a um incêndio, apresenta arquitectura do século XIX, cuja origem se perde nos séculos, foi o cenário dos amores proibidos do príncipe D. Pedro e D. Inês de Castro, dama de companhia de sua mulher D. Constança. Diz a lenda que foi na Quinta das Lágrimas que D. Inês chorou pela última vez, enquanto era trespassada pelos punhais dos fidalgos a quem o rei Afonso IV ordenara a sua morte. As lágrimas então derramadas inspiraram Luís de Camões a criar o nome de Fonte das Lágrimas e muitos outros escritores a consagrar o amor eterno de Pedro e Inês.
O Jardim foi idealizado no século XIX, seguindo uma tendência da época, a da constituição de uma espécie de Museu Vegetal, onde estariam representadas espécies de todo o mundo. A sua flora forma um conjunto de tal maneira rico e diversificado que se equipara em raridade e exotismo aos mais completos jardins botânicos.
Coimbra é, assim, a terra dos amores de Pedro e Inês. Aqui se terão visto pela primeira vez. Os “saudosos campos do Mondego” e os arvoredos da Fonte dos Amores terão sido o palco dos seus secretos encontros.
Após a morte de D. Constança, passaram a viver no Paço régio, situado junto do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Nele terão nascido os três filhos: os Infantes D. Pedro e D. Dinis e a Infanta D. Beatriz. Aí ou em local muito próximo, terá sido executada a sentença que condenara D. Inês. É, no entanto, de tradição popular que a tragédia ocorreu no local depois conhecido por Fonte das Lágrimas ou Fonte dos Amores.

PEDRO, JUSTICEIRO E CRU
Quero comentar esta chacina com os meus companheiros de viagem. Procuro por eles em Santa Clara, em Coimbra, no choupal, nas margens esquerda e direita do Mondego, mas não os encontro. Concluo que, arrepiados com a morte matada de Inês de Castro, cada qual decidira regressar ao seu próprio tempo, esse é o centro de gravidade que está sempre a puxar por nós. Fácil é tornar a ele, é só escorregar e deixar-nos ir a meio do sono; quando acordamos já estamos lá. Mais difícil é livrar-nos dele, há que ter condão. Eu, que sou um obstinado, resolvo ficar por aqui mais um bocado…
Vejo D. Pedro pegar em armas contra o pai. Com a sua tropa, tenta mesmo ocupar a cidade do Porto. Mas também vejo o bispo de Braga a tentar apaziguar a desavença. Para minha surpresa, D. Pedro amansa. Deduzo que as palavras mágicas tenham sido “a guerra civil envolve sempre o martírio de inocentes”, e D. Pedro a lembrar-se então da inocência dos seus filhos com D. Inês…
El-Rei exige que D. Pedro não persiga os matadores de Inês de Castro e o Príncipe garante que já os perdoou. El-Rei finge aceitar a palavra dada, mas dela desconfia… De qualquer forma, começa a partilhar com o filho o mando e o comando do Reino. Mas quando em 1357 cai no leito de morte, ainda consegue aconselhar os matadores a exilarem-se em Castela. Pelo sim, pelo não, os três abalam e tratam de cruzar fronteira…
Morre el-Rei D. Afonso IV e a primeira medida de D. Pedro de Portugal é combinar com D. Pedro de Castela (filho de D. Afonso XI), a troca de homiziados castelhanos em Portugal por homiziados portugueses em Castela. É assim que são entregues à justiça portuguesa Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Diogo Lopes Pacheco consegue fugir a tempo de Castela para Aragão e daqui para França.
Enquanto trincha e come a sua vianda mal passada pelas brasas e bebe o seu vinho tinto, D. Pedro I vai assistindo à demorada tortura de Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. A um, é arrancado o coração pelas costas, a outro pelo peito. Persignam-se os nobres e murmuram, apavorados:
– El-Rei traiu a palavra dada…
Mas a um homem bom (é o nome que neste tempo se dá a um burguês conceituado), ouço dizer:
– Quem trai a quem fez traição, tem cem anos de perdão…
A obsessão d’el-Rei D. Pedro I passa a ser a justiça que aplica, de forma inclemente, contra criminosos quer de origem nobre, quer plebeia, sem fazer distinção entre uns e outros, o que muito agrada à arraia-miúda. Porém, mais do que fazer justiça, D. Pedro gosta é de ver aplicá-la, goza muito com o sofrimento dos condenados. Por isso ora dizem que é Justiceiro, ora dizem que ele é Cru (cruel). Séculos mais tarde irão chamá-lo psicopata, sádico. Não digo que não seja mas estou em crer que a sua Inês degolada em frente dos filhos, infectou e fez purgar o lado obscuro da sua alma…
Nos intervalos entre a aplicação da justiça e a governação do Reino, do que D. Pedro mais gosta é de sair pelas ruas a bailar e a folgar com outros foliões da arraia-miúda.
Mas nunca se esquece da sua paixão. Comentam que, depois da morte de D. Constança, teria casado secretamente com Inês de Castro. Nunca ouvi D. Pedro dizer tal coisa e duvido que isso tenha acontecido, pois seria afrontar desnecessariamente el-Rei D. Afonso IV. Além do mais, para poder casar com uma prima, teria que obter licença especial, bula papal. E desta não há qualquer notícia…
Tenta é preservar a memória de Inês de Castro. Mandou esculpir dois túmulos, um para Inês, outro para ele. Colocados lado a lado, virão a ser os grandes expoentes da arte tumular medieval portuguesa. Os baixos relevos do túmulo de D. Inês representam cenas da vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Sobre a tampa está esculpida a imagem de Inês, de corpo inteiro, com coroa na cabeça como se fora rainha. As esculturas do túmulo de D. Pedro representam cenas da vida dos dois apaixonados desde a chegada de Inês a Portugal. Por sua ordem, os dois túmulos são colocados dentro da igreja, à mão direita, cerca da capela-mor do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Em 1361 D. Pedro manda trasladar os resto mortais de D. Inês, do Mosteiro de Santa Clara para o Mosteiro de Alcobaça. Os restos mortais seguem em liteira de luxo, conduzida por grandes cavaleiros, acompanhada por muita gente, nobres, clérigos, burgueses e plebeus. Pelo caminho até Alcobaça, muitos homens com círios nas mãos. No Mosteiro, muitas missas e grande solenidade para depositar os restos de Inês em túmulo novo.

Túmulos de D. Pedro e D. Inês No transepto e de cada lado, encontram-se os túmulos de D. Pedro I e D. Inês de Castro, os eternos amantes de uma das mais belas e trágicas histórias de amor. O túmulo de D. Inês apresenta nas faces laterais cenas da vida de Cristo. O túmulo de D. Pedro alude à vida de S. Bartolomeu. Na cabeceira, vê-se uma espantosa Rosa da Vida do par amoroso. Nas dezoito edículas que se dispõe em duas faixas circulares concêntricas, está documentado todo o trágico poema de amor, desde as cenas da vida dos dois amantes, até ao sangrento fim da doce Inês e o castigo dos assassinos. Na parte inferior da rosácea, no pequeno túmulo com uma estátua jacente lê-se o supremo adeus: “Até ao fim do Mundo…”

Crônica de D. Pedro I – de Fernão Lopes
Como foi trelladada Dona Ines pera o moesteiro Dalcobaça, e da morte delRei Dom Pedro
Por que semelhante amor, qual elRei Dom Pedro ouve a Dona Enes, raramente he achado em alguuma pessoa, porem disserom os antiigos quc nenhuum he tam verdadeiramente achado, como aquel cuja morte nom tira da memoria o gramde espaço do tempo. E se alguum disser que muitos forom ja que tanto e mais que el amarom, assi como Adriana e Dido, e outras que nom nomeamos, segumdo se lee em suas epistolas, respomdesse que nom fallamos em amores compostos, os quaaes alguuns autores abastados de eloquemcia, e floreçentes em bem ditar, hordenarom segumdo lhes prougue, dizemdo em nome de taaes pessoas, razoões que numca nenhuuma dellas cuidou; mas fallamos daquelles amores que se contam e leem nas estorias, que seu fumdamento teem sobre verdade. Este verdadeiro amor ouve elRei Dom Pedro a Dona Enes como se della namorou, seemdo casado e aimda Iffamte, de guisa que pero dela no começo perdesse vista e falla, seemdo alomgado, como ouvistes, que he o prinçipal aazo de se perder o amor, numca çessava de lhe emviar recados, como em seu logar teemdes ouvido. Quanto depois trabalhou polla aver, e o que fez por sua morte, e quaaes justiças naquelles que em ella forom culpados, himdo contra seu juramento, bem he testimunho do que nos dizemos. E seemdo nembrado de homrrar seus ossos, pois lhe ja mais fazer nom podia, mandou fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado, poemdo emlevada sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça, como se fora Rainha; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça, nom aa emtrada hu jazem os Reis, mas demtro na egreja ha maão dereita, açerca da capella moor. E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Samta Clara de Coimbra, hu jazia, ho mais homrradamente que se fazer pode, ca ella viinha em huumas andas, muito bem corregidas pera tal tempo, as quaaes tragiam gramdes cavalleiros, acompanhadas de gramdes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e domzellas, e muita creelezia. Pelo caminho estavom muitos homeens com çirios nas maãos, de tal guisa hordenados, que sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre çirios açesos; e assi chegarom ataa o dito moesteiro, que eram dalli dezassete legoas, omde com muitas missas e gram solenidade foi posto em aquel muimento: e foi esta a mais homrrada trelladaçom, que ataa aquel tempo em Portugal fora vista. Semelhavelmente mandou elRei fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si, e fezeo poer açerca do seu della, pera quamdo se aqueeçesse de morrer o deitarem em elle. E estamdo el em Estremoz, adoeçeo de sua postumeira door, e jazemdo doemte, nembrousse como depois da morte Dalvoro Gomçallvez e Pero Coelho, el fora çerto, que Diego Lopes Pachequo nom fora em culpa da morte de Dona Enes, e perdohou-lhe todo queixume que del avia, e mandou que lhe emtregassem todos seus beens; e assi o fez depois elRei Dom Fernamdo seu filho, que lhos mandou emtregar todos, e lhe alçou a semtemça que elRei seu padre comtra elle passara, quamto com dereito pode. E mandou elRei em seu testamento, que Ihe tevessem em cada huum ano pera sempre no dito mosteiro seis capellaaens, que cantassem por el e lhe dissessem cada dia huuma missa oficiada, e sahirem sobrel com cruz e augua beemta: e elRei Dom Fernamdo seu filho, por se esto melhor comprir e se cantarem as ditas missas, deu depois ao dito moesteiro em doaçom por sempre o logar que chamam as Paredes, termo de Leirea, com todallas rendas e senhorio que em el avia. E leixou elRei Dom Pedro em seu testamento çertos legados, a saber, aa Iffamte Dona Beatriz sua filha pera casamento cem mil livras; e ao Iffamte Dom Joham seu filho viimte mil livras; e ao Iffamte Dom Denis outras viinte mil; e assi a outras pessoas. E morreo elRei Dom Pedro huuma segumda feira de madurgada, dezoito dias de janeiro da era de mil e quatro cemtos e cimquo anos, avemdo dez annos e sete meses e viimte dias que reinara, e quaremta e sete anos e nove meses e oito dias de sua hidade, e mandousse levar aaquel moesteiro que dissemos, e lamçar em seu muimento, que esta jumto com o de Dona Enes. E por quamto o Iffamte Dom Fernamdo seu primogenito filho nom era estomçe hi, foi elRei deteudo e nom levado logo, ataa que o Iffamte veo, e aa quarta feira foi posto no muimento. E diziam as gentes, que taaes dez annos numca ouve em Portugal, como estes que reinara elRei Dom Pedro.

Fernão Lopes (1380? – 1460?) terá nascido em Lisboa, de uma família do povo. É considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade. Foi escrivão de livros do rei D. João I e “escrivão da puridade” do infante D. Fernando. D. Duarte concedeu-lhe uma tença anual para ele se dedicar à investigação da história do reino, devendo redigir uma Crónica Geral do Reino de Portugal. Correu a província a buscar informações, informações estas que depois lhe serviram para escrever as várias crónicas (Crónica de D Pedro I, Crónica de D. Fernando, Crónica de D. João I, Crónica de Cinco Reis de Portugal e Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal.). Foi “guardador das escrituras” da Torre do Tombo.

Protagonistas
D. Afonso IV
D. Afonso IV, o Bravo, procurou, no essencial, prosseguir a política de boas relações com Castela e Aragão, que o Pai havia mantido com êxito, por forma a garantir a estabilidade da Casa de Portugal. Quando D. Constança, mulher do Infante D. Pedro morreu, pouco depois de ter nascido D. Fernando, D. Afonso IV, temendo que o filho decidisse casar com D. Inês e aumentasse por isso, a influência dos Castros, seus irmãos, sobre as opções de estratégia diplomática e política de D. Pedro, logo que este passasse a ter a responsabilidade da governação, decidiu afastar drasticamente os seus receios e os dos seus conselheiros pela condenação à morte de D. Inês de Castro.

D. Pedro Iº
D. Pedro nasceu em Coimbra, em 1320. Aos vinte anos recebeu em casamento D. Constança, filha do Infante D. Juan Manuel, e descendente de Afonso X de Castela.
Acompanhava-a, no seu séquito, D. Inês de Castro, de uma nobre família da Galiza muito influente na política castelhana. De uma beleza que deixou fama, tudo parece indicar que o Infante cedo se deixou enamorar por ela, dando lugar, de imediato, a resistências que culminariam com o seu exílio na vila fronteiriça de Albuquerque. Mas só depois do falecimento de D. Constância, Pedro e Inês passaram a viver mais livre e publicamente a paixão que os consumia.

Os Lugares e Os Acontecimentos

Coimbra

Coimbra é a terra dos amores de Pedro e Inês. Aqui se terão visto pela primeira vez. Os “saudosos campos do Mondego” e os arvoredos da Fonte dos Amores terão sido o palco dos seus secretos encontros. Após a morte de D. Constança, passaram a viver no Paço régio, situado junto do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Nele terão nascido os três filhos: os Infantes D. Pedro e D. Dinis e a Infanta D. Beatriz. Aí ou em local muito próximo, terá sido executada a sentença que condenara D. Inês. É, no entanto, de tradição popular que a tragédia ocorreu no local depois conhecido por Fonte das Lágrimas.

Montemor-o-Velho
No Castelo de Montemor-o-Velho, nos primeiros dias de Janeiro de 1355, D. Afonso IV reuniu o seu conselho, em que estiveram presentes nobres influentes, como Diogo Lopes Pacheco, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. A decisão de condenar Inês de Castro à morte terá sido tomada numa das salas do austero Paço Real, hoje desaparecido. Temiam todos que, por influência dos Castros, D. Pedro acabasse por ser levado a intervir nas lutas internas de Castela, como estivera para acontecer nos finais de 1354, tendo sido disso proíbido, à última hora, pelo próprio Afonso IV. Mas também temiam perder, com D. Pedro, a influência que havia muito detinham junto do velho monarca. Na manhã seguinte, dirigiram-se todos a Coimbra, onde aproveitaram a ausência de D. Pedro, numa caçada, para dar cumprimento à decisão tomada em Montemor.
O poeta e dramaturgo renascentista, António Ferreira, procura reconstituir a tragédia dos últimos momentos da vida de Inês de Castro e o conflito em que o rei Bravo se terá debatido. As “razões da estabilidade política”, invocadas pelos conselheiros, sobrepunham-se às “razões dos afectos”.

Cantanhede
Foi em Cantanhede, em local não rigorosamente identificado, que D. Pedro, em 1360, proferiu a célebre “Declaração” em que afirmava ter contraído matrimónio com D. Inês de Castro, declaração polémica quanto à sua veracidade, devido não só à imprecisão de alguns dados tidos por fundamentais, como também quanto à sua real intenção, orientada provavelmente para a legitimação dos filhos de D. Inês. A “Declaração” de Cantanhede inscrevia-se, afinal, na mesma linha de actuação que conduziu à cerimónia da lendária coroação póstuma de Inês como Rainha de Portugal, no Mosteiro de Santa Clara.

Mosteiro de Alcobaça
É no transepto da Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça que se encontram os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, enquadrando-se o valor simbólico de que se revestem na mística austera da espiritualidade cisterciense. Em 1361, por ordem de D. Pedro, foi colocado no lado direito do transepto o túmulo de D. Inês de Castro e, anos mais tarde, dando-lhe a direita, o túmulo do próprio D. Pedro. A actual colocação dos dois túmulos data de meados do século XX, após obras de restauro e de reposição das naves da Igreja no estilo gótico inicial.
Os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, mandados esculpir pelo próprio Rei, constituem os mais belos exemplares da arte tumulária medieval portuguesa. Os baixos relevos do de D. Inês têm por tema principal cenas da Vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Nas esculturas do de D. Pedro estão representadas cenas da vida dos dois amantes desde a chegada de Inês a Portugal.
Foi em 1178, no contexto da concretização do projecto europeu da Reconquista Cristã, que D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, incumbiu os monges da Ordem de Cister de iniciarem a construção, em Alcobaça, de uma Abadia e de outras obras destinadas à fixação das populações e ao aproveitamento agrícola das terras recentemente reconquistadas aos mouros. A estrutura da obra seguiu o plano da Igreja-Mãe de Claraval como modelo. A simplicidade e a austeridade eram de regra, a que o esforço de guerra acrescentava atributos de fortaleza, igualmente notórios na Sé românica de Coimbra. O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça é o primeiro edifício de estilo gótico evoluído que se construiu em Portugal.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal